Sempre leio sobre teatro e ao invés de encontrar respostas, na maioria das vezes, entendendo a amplitude da arte de representar, termino com mais e mais perguntas. Aprendi que assim é entender o palco, atuando e questionando atuações, técnicas, idéias. A alma teatral é muito mais funda do que se imagina. E mesmo no momento sagrado em que damos vida para as personagens, temos perguntas sobre elas. Assim como acontece no mundo da realidade, onde a vida nada mais é do que um grande baú de perguntas e nós, seres humanos cheios de conflitos, também merecemos muitos porquês.

Aqui é meu cantinho para refletir teatro. Afinal, não tenho as respostas, apenas trago as perguntas.

 

O mundo do teatro é um baú de perguntas, assim como na vida...

 

 

 

 

Os Sonhos de Ana e de todos nós!

de Tammy Luciano (escrito em 12 de dezembro de 2004) 

 

Estou feliz, mas uma etapa realizada. Deu tudo certo em "Os Sonhos de Ana" e de repente todo o medo que eu tinha da família da Aninha não gostar da homenagem ou fazê-los sofrer foi embora. A peça foi linda, todos amaram. Apesar das cenas mais emocionantes, o nosso teatro conseguiu falar de Ana sem machucar o coração de ninguém. 

(Foto: Eu, de palhacinha, mandando beijinho para todos que estão curtindo e acompanhando minhas conquistas!)

Posso contar aqui que na parte final da peça, o público ficou tão silencioso que eu comecei a me sentir estranha, achando que as pessoas não estavam curtindo nossa apresentação. Quando acederam as luzes, percebi que as pessoas estavam na verdade chorando de emoção, de saudade e de amor. Foi um dos momentos mais emocionantes que passei na vida. 

A mãe da Ana quis falar, agradecer nosso carinho. Ficamos todos muito emocionados. Foi uma noite de fazer o coração bater forte. Hoje tem mais, aliás, passei aqui só para deixar meu beijo e avisar que deu tudo certo. Graças a Deus!

Estou devendo fotos! Eu sei. Prometo colocar essa semana. Aproveitem o domingo, fiquem na paz e sejam felizes. Somente a felicidade é urgente!

Volto logo, rapidinho, assim que der...

 

Mais uma novela dentro das muitas novelas que a gente vive e encerra...

de Tammy Luciano (escrito em 07 de dezembro de 2004) 

Tanta coisa aconteceu esse final de semana. Nossa...graças ao bom Deus, deu tudo certinho na peça e encerramos com a maior alegria nossa missão. Parecia cena de novela. Todo mundo se abraçando, chororô, declarações, conversas, surpresas, descobertas e um belo final para uma turma que viveu várias emoções.

Meu trabalho consegue lavar a minha alma e me realizar inteira. Mesmo cansada, preocupada, no final fica tudo bem. Bom demais descobrir as amizades conquistadas no suor, as pessoas conhecendo mais de mim e trocando a maior energia teatral. Como o Planeta Teatro consegue unir e fazer bem para tanta gente.

(Foto: Eu e Tiago Bessa, garoto sangue bom, gente fina toda vida que eu sempre agradeço ter conhecido. No nosso segundo dia de apresentação, depois dos agradecimentos, Tiago disse aos presentes que me amava, amor amigo, em alto e bom som. O elenco rindo dele, ele nervoso e encerrando com: "Poxa, gente, eu amo ela! Não ri não, eu amo ela" Também te amo, Tiaguinho! Alguns momentos dane-se o português!!! *Importante dizer: Tiago, usando a camiseta da peça, tem um sotaque mineiro de lindo. Ele pediu licença pro meu Amore para dizer que me amava, o sutiã aparecendo na foto é coisa da personagem e a borboleta no meu cabelo foi presente da minha prima Nanda!)

O processo de ensaio de "Nosso Louco Cativeiro" não foi fácil. Alguns momentos, precisei ser forte para fazer o barco remar no sentido certo. Tinha como certeza o tempo. Ele confirmaria minhas opiniões, como cortar drasticamente pedaços enormes do texto. O público não agüentaria tanto tempo de peça. Para os autores, eu era uma açougueira. Hoje, eles entendem, concordam e apoiam minha decisão.

Outros desencontros aconteceram ao longo dos nossos ensaios, momentos superados, conversas encerradas com palavras sinceras e abraços apertados. Não esquecerei jamais os momentos de puro encontro, a turma unida, um ajudando o outro, todo mundo na mesma fé. Como falei, o encerramento dessa turma foi o final FELIZ de uma novela boa. A única diferença era não existir nenhum antagonista, apenas protagonistas, pessoas especiais que eu vou sempre desejar todo bem do mundo. Pessoas, obrigada por tudo!

Beijos especiais para a Juliana, namorada do Alexandre, visitante assídua desse Blog, mesmo sem deixar recado, que eu tive o prazer de conhecer. Beijo também para a Thaty Álamo, que eu conheci ao vivo no teatro. Que luz, que sorriso, que jeito doce. Thaty antes de ir embora me disse: "Não fica triste, porque não gosto de ler no Blog que você está triste". Pois é, Thaty, alguns momentos, esqueço e desando a falar das dores. Só agora conhecendo vocês no mundo real me dou conta que a brincadeira aqui é séria!

Senhoras e senhores, as fotos!!!

 

Sou um grãozinho de areia e tô feliz...

de Tammy Luciano (escrito em 05 de dezembro de 2004) 

Sou mais uma, sou apenas uma pessoa comum querendo fazer teatro, querendo escrever, querendo ser. Sou eu, batalhando desde 1999 na Casa dos Artistas e realizando minhas pequenas coisas como acho que tem que ser.

(Foto: Eu e a turma de "Nosso Louco Cativeiro". Valeu a batalha!!!)

Alguns podem dizer que sou maluca. Graças a Deus já deixaram de dizer que estou perdendo meu tempo. Pelo menos depois de anos e anos, tudo começou quando eu tinha 14 anos, as pessoas já entenderam que a brincadeira é séria e eu não vou parar. Só quando a música diminuir, o som acabar e eu for convidada a dançar em outra festa, de outro planeta, com novas estrelas...por enquanto, fico.

Realizar uma peça de teatro é sempre um susto bom. A gente nunca acha que vai dar certo e sempre dá. Ontem, foi lindo, emocionante e especial. Mais um dia para contar para quem quiser no dia em que eu estiver lembrando meu passado. Meu grande medo com resultados acabou. Hoje em dia, confio e vou. Vou, vou, vou e vou. Com algumas pessoas atrás de mim, confiando no que eu faço e dando a maior força para jamais parar. Todo os anos, pessoas novas aparecem, novos atores para ensinar, trabalhar, ensaiar e apresentar. O processo nunca é fácil, mas, emocionados nas apresentações, entendemos o quanto a luz do teatro nos envolve e nos faz feliz.

Lindo ver a esposa do meu assistente de direção, Marcio Navarro, aos prantos, orgulhosa do maridão. Melhor ainda ver todo mundo feliz, pulando no meu encerramento Happy de sempre. São anos e anos com a mesma música! É marca registrada. Maravilhoso escutar os comentários especiais, receber abraços emocionados, rir dos momentos que só o elenco sabe e voltar para a casa pensando: ainda bem, amanhã tem mais!!! 

Hoje, estou feliz. Ontem, foi lindo e hoje também vai ser. Obrigada para você que torceu e participou desse momento.

Tô na corrida...amanhã falo mais...

 

Nervosa, eu? Imagina...

de Tammy Luciano (escrito em 04 de dezembro de 2004) 

 

Sim, eu estou nervosa. Sim, eu estou preocupada. Sim, eu preciso ficar tranqüila e calma. Sim, hoje tem apresentação de "Nosso Louco Cativeiro". A voz começou a falhar desde quinta-feira. Um nervoso e uma reza forte para dar tudo certo.

(Foto: Os cabelos estão em pé!!!)

O dia de ontem foi uma corrida louca e ficou impossível não terminar o dia cansada. Sabe quando dentro de você só coisa boa? Meu Deus, alguns dias me pergunto como me deixei enganar por tanto tempo, achando que era feliz sem ser. Não era culpa de ninguém, apenas dificuldade de visão na hora de avaliar a própria vida. Estou dentro de uma energia muito boa, confiando demais no bem estar, na paz interior, nos encontros de luz. Mesmo estando de cabeça para baixo, estou bem...(risos) 

Pensamento é coisa boa. Correr na mente frases positivas faz um bem enorme para a alma. Então, penso, penso, penso, mas só coisa boa. Quando, sem querer, a mente manda algum pensamento errado passear pelos neurônios, corro com a vassoura dos novos tempos e vou varrendo o pessimismo. Não sei se essa conquista de paz vai ser para sempre. De qualquer forma, já combinei comigo mesma, eu e meus grandes tratados, manter o equilíbrio, mesmo nos dias de incêndio, dilúvio ou dor. Quem mais pode atingir você é você mesmo. O único encantamento que funciona é o do poderoso!!!  O único pensamento que está valendo é o nosso...de energia boa!

Estou aprendendo novamente a me encantar feito criança pelo puro momento de estar ali, rindo da vida, sem esperar nada além do meu próprio sorriso. Esse "reaprendizado" infantil me fez dançar essa semana, emocionada com o simples fato de existir. 

Fica na paz, pessoinha! Estou torcendo por você!

 

Minha alma que escreve e ama atuar

de Tammy Luciano (escrito em 15 de setembro de 2004) 

Minha arte não é fácil. Nunca escondi de ninguém o caminho que quero, as idéias na cabeça, tudo me fazendo batalhar para ser alguém legal e bacana na carreira. O peso de ser exemplo, de ter sempre que mostrar conquista é um peso latente. Quando acerto, lindo! Todos querem ser meu pai, minha mãe, minha irmã, meu irmão, meu primo, meu amigo, meu colega, meu conhecido, meu alguém. Assim é a lei da vida. Se você não chega em lugar nenhum, o que eles são seus? A falta de orgulho mata os parentescos.

(Foto: Não sei porque gostei dessa foto! Acho que é por lembrar que ele pediu para eu olhar e eu disse não. Depois, quando virei, estava sorrindo! O sorriso não está dando para ver, mas se reparar minha alma está sorrindo...detalhe para o efeito de luz nos meus dedos...)

Não quero de jeito nenhum ser uma qualquer que usa o teatro e a TV para aparecer. Quero passar uma mensagem, ter o que dizer, deixar alguma coisa em algum lugar para um dia alguém ler e ver. Os superficiais passam batidos, somem, merecem isso. Os superficiais são comidos pelas traças.

Eu espero de mim. Eu me espero em mim.

Alguns dias, fico triste de ver a vida passando e eu enjaulada entre letras e textos, minha melhor escolha parece maldita. Em outros dias, minhas letras e textos são tudo que tenho. Ah, solidão acompanhada que me segue mesmo quando tento fugir dela. Ah, solidão criminal que me faz sozinha nessa casa grande que eles moram. 

Já prometi para mim que esse verão vou aproveitar até o fim. Quero praia, quero sol, quero a minha cidade linda correndo na veia. Quero meus finais de semana de paz, longe do quarto que me afoga, que me deixa triste, que me diz que não saio do lugar e das vozes que escuto de longe e não me convidam para nada.

Escrevo páginas e mais páginas de uma história que estou vendo passar dentro de mim. A personagem está perdida como eu fui um dia. Vai errar na vida, como eu errei. Vai tentar concertar as coisas como eu tentei. No final, vai ver que o melhor é seguir, achando que perdeu. Ganhou. Calo a boca. Pulo parágrafos. Vários.

Vários.

Vários.

Vários.

O poema mais bonito que escrevi não é o mais feliz.

Hoje, o que me basta e me faz bem é o caminho que escolhi. Não quero mais pedir desculpas pelos meus atos. Não estou fazendo nada de errado. Não quero abaixar a cabeça. Abaixei o suficiente. Também não acho mais necessário me defender. Estou no auge da vida e quero experimentar uma nova cidade, uma nova voz no meu ouvido, um novo jeito de olhar. Quero apenas me defender de mim, porque alguns dias cismo de torcer contra, parecendo ser da torcida organizada da queda.

Ando escrevendo bastante, desejando me encontrar nessas palavras sem rota certa, sonhando em escrever novos poemas e viver em novos mundos. Escrevo várias folhas de um livro novo e eles não notam. Dizem que estou no mesmo lugar há meses.

Estou feliz. Pelo menos algo em mim vai bem. Eu mesma.

 

Agora, posso falar!

(sobre participação na novela Senhora do destino)

de Tammy Luciano (escrito em 14 de setembro de 2004) 

 

(Fiquei de explicar aqui porque mudei o texto do Blog do dia 10. Nada sério. É que prometi uma notícia exclusiva para a Regina Rito, jornalista querida do Jornal O Dia. Ela, muito simpaticamente, escreveu uma notinha linda falando do meu trabalho. Por educação e ética, a gente não fala antes do jornal. Fica aqui meu agradecimento para Regina que deu a maior bola para a minha batalha! Agora que a nota está no jornal de hoje, posso contar como foi minha pequena participação na novela!)

A gravação foi ótima! Gravei duas cenas, quase não falo (risos), com Mylla Cristie e já recebi a boa notícia que devo voltar a gravar. Espero que a novela tenha bastante cena de hospital. Pelo menos na ficção, posso torcer para aparecer bastante gente doente, porque minha querida enfermeira vai ter assim novas cenas para gravar. 

(Foto: Jéssica Sodré, Agles Steib e eu)

Televisão é aquela coisa louca. Quando cheguei no estúdio, o roteiro de gravação avisava que a equipe gravaria 30 cenas só naquele dia. Quando a gente assiste a novela, não acredita nessa loucura toda. Não sei se foi Lima Duarte, ou Francisco Cuoco, que dizia: "A TV é a arte da espera". E é mesmo. Também é a arte de saber viver ali dentro. Porque, apesar de falarem de todo o glamour, não existe glamour nenhum. Todos os sentimentos humanos que reinam aqui fora, reinam lá dentro.

Com a equipe do figurino, não demorei quase nada. As meninas tinham reservado alguns vestidos e depois de provar dois, fiquei com o terceiro. Roupa de enfermeira não tem muito charme mesmo. Resolvi vestir o menos pior. Ganhei também um jaleco e adorei o cabelinho antiguinho, com direito à rendinha e tudo!

Bom demais encontrar Agles, ver meu aluno querido pelas pessoas, entusiasmado com o trabalho. Com certeza, essa é a primeira de muitaaasssss novelas que ele ainda vai fazer. Conversei um pouco com o Ronnie Marruda, faz o cigano na novela, e Adriana Lessa, mãe do Agles na trama. Com ela, papiei um pouco mais no camarim. Dois atores profissionais e queridos. A Jéssica Sodré, faz papel de irmã do Agles, também é outra queridinha. Entrou para a novela por testes. Basta acreditar que acontece!

Fiquei impressionada com o talento do Nelson Xavier. Repetitivo dizer? Ele gravou uma cena linda com o André Gonçalves, voltando atrás na promessa de arrancar o filho do coração. O olhar do Nelson dizia tudo, a emoção na cena foi linda e estou louca para ver como ficou o momento depois de editado. Ao contrário de outros atores que ficam horas para gravar uma cena curta, eu já assisti isso acontecer várias vezes e, claro, não vou citar nomes, e mesmo assim não convencem, Nelson mandou ver, emocionou a alma de quem assistiu a gravação.

Fotos! Fotos! Fotos! Vale ver as fotos e ler a história sobre o par de brincos que usei na gravação!

 

 

Mesmo quando o filme não parece bom...

de Tammy Luciano (escrito em 06 de agosto de 2004) 

Quando decidi que ia sonhar, não pensei muito nos outros, mas em mim. Decidi que somente desistiria, caso algo me deletasse da vida. Meus sonhos nunca morreram. Ao contrário, parecem mais vivos do que nunca. Hoje, sinto a importância deles na vida das pessoas que me querem bem. Quando alguém que amo me cobra retorno, mesmo piorando meu estado de tensão, me fazendo mais estressada do que já sou, aceito a ajuda, entendendo que é uma maneira de fazer vivo essa realidade que enfiei na cabeça.

Aí, outro dia, estive em uma reunião na casa da atriz Carla Diaz. Ao chegar lá, encontrei um ator, amigo de muito tempo, pessoa muito especial. Infelizmente, ainda não conseguiu ser conhecido do grande público, mas Deus vai ajudar e um dia vai acontecer. Ele estava triste. Começamos a conversar e as frases pela metade iam me informando que ele estava desgostoso da vida: idade, tempo passando, só sou ator, não sei fazer mais nada, meus amigos foram, eu fiquei...

Observei aquele rapaz bonito, jovem, cheio de vida e...e...e...triste. Muito chato perceber que, de alguma forma, os sonhos dele parecem impossíveis. Não demorou e ele disse: queria dar esse presente para minha mãe. Sabe...meu sucesso profissional. 

Eu entendo isso como ninguém. Durante anos batalhei, para vencer, pensando que alguém mais na minha casa ficaria feliz. Hoje em dia, vejo meus pais orgulhosos de mim e penso o quanto fico feliz em poder proporcionar isso. Só que nada teria acontecido se eu tivesse pensado algum momento em desistir. É preciso a máquina estar ligada para andar. É preciso jogar a flecha para atingir o alvo.

(Estou, hoje, vivendo o seguinte desafio: depois da primeira conquista, todos esperam a segunda)

Não sei ao certo se isso é um vírus, mas esse não é o primeiro amigo que encontro assim. Vamos lá! Seus sonhos são seus! A gente divide com alguém, os outros criam expectativas, mas a realização fica na nossa mão. Muita gente amada ajudou e estimulou minhas pequeninas conquistas, mas se eu tivesse abaixado a cabeça, era minha cabeça na mesa, servida para a turma de esfomiados. Eu resolvi acreditar em mim, acreditar em algum amanhã que parecia certo, mesmo que nenhuma certeza seja nossa nessa vida.

Resolvi dizer ao meu amigo o quanto ele precisava ser forte. Mandei tirar da cabeça o romantismo da carreira. Nesse meio, ninguém liga para você. Você é que telefona para as pessoas. Você negocia seu trabalho, apresenta sua arte, faz o plantio das suas sementes. Nada é fácil nessa carreira difícil. A mãe da Carlinha Diaz confirmou o que eu dizia, falando da necessidade de meter a cara na vida, parar de esperar em casa e contou das famosas que acabam uma novela e batalham para voltar, ligando para diretores e buscando oportunidades. Eu falei da minha corrida diária, do vai e vem, dos textos, dos desejos e da vontade...e disse a ele que a hora é agora!

Saí da casa da Carla com uma sensação que aquela noite não era para mim, mas para o meu amigo. Vou ficar na torcida por ele. Eu sei que não é fácil. Muitas vezes, a gente acaba achando que não nasceu para a sorte. Lembre que a SORTE mora no arco-íris e está lá para quem quiser buscar. É preciso apenas andar até lá.

Fica com Deus e pensa no que você tem feito para seus sonhos virarem realidade. Como diria Boni, o grande homem da TV brasileira: se está fácil, eu não quero!

Com fé e pé, a gente chega!

 

Contando não vai ser igual... 

de Tammy Luciano (escrito em 14 de julho de 2004) 

Passei um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Sim, estava com eles, meus alunos. Sempre eles! Fizemos um exercício individual em que cada um fala um pouco de si. Sempre demoro a fazer essa aula, porque eles precisam estar entrosados e, ao mesmo tempo, o encontro aproxima a turma mais ainda, porque sempre alguém conta um detalhe que ninguém sabe. Dessa vez, pensei até em interromper a aula. Choramos muito, todos, com as histórias ditas. Quem não chorou, ficou com o nó na garganta.

Foi tudo lento, cada um falando aos poucos. Pouca expectativa para a aula e de repente as histórias ali nos fazendo entender a vida de outra maneira. Uma aluna lamenta a relação com a mãe. Chora ao lembrar o quanto apanhou, as palavras agressivas que escutou durante anos e do namorado que perdeu para a própria mãe na adolescência. Elas não se falam há um ano. Depois, o menino, que todos pensavam ter vida perfeita, contou do pai que só conheceu aos onze anos de idade. Falou com olhos emocionados do homem que o fez e ele demorou a ter intimidade, porque simplesmente jamais havia encontrado antes.

Achei que ali seria o bastante. Nada. Uma aluna chora seguidamente porque lamenta a situação ruim da família. Diz que está vendo a mãe se acabar, porque as dificuldades financeiras são muitas. Ela não agüenta ver os pais lutarem tanto e não saírem do lugar. Comentei o quanto aquela dificuldade estava ajudando a unir o lar, já que antes as coisas eram melhores no assunto dinheiro, mas não havia tanto entrosamento. As dores nos fazem mais unidos. Foi tudo que consegui dizer.

E veio a aluna que é calada, sorri envergonhada, tem um olhar triste, mas demonstra muita fé na vida. O que passou faz entender melhor suas caraterísticas. Contou emocionada da leucemia que sofreu e venceu depois de dois anos. Disse jamais esquecer a luta da mãe ao lado dela. Em sua mão é possível ver a aliança que usa até hoje: Pedi para o meu pai comprar e me casei com a vida.

Meu Deus, quantas histórias temos dentro de cada um de nós...

As palavras escutadas ainda estão latentes em mim. A noite que compartilhei com a turma jamais esquecerei. Ainda tenho muito que aprender com a vida, mas uma das maiores lições já está fortalecendo dentro de mim: nada é igual ao poder do amor. Vamos amar o outro, entender que cada um tem o que dizer e dividir. Ninguém é melhor do que ninguém. Pelo contrário, somos todos iguais com nossas dores e amores.

Vamos amar sempre que der. Vamos amar sempre que a vida permitir. Vamos amar mesmo quando não for possível. Vamos amar mesmo de longe. Vamos amar para fazer nascer o amor. Só o amor nos faz feliz. Só o amor vive até o sempre. 

 

 

Sonho e destino de todos nós... 

de Tammy Luciano (escrito em 04 de julho de 2004) 

 

Outro dia, assistindo à reprise do prêmio MultiShow, a banda Los Hermanos, ao receber o prêmio disse: "Sonhar é uma grande responsabilidade, porque sonho é destino". A frase parou meu pensamento, instantaneamente. Parei de ver TV e passei a pensar em sonho e destino. Meu sonho da escrita, meu destino de escrita hoje. Trabalhando no que eu sempre quis. Ainda não estou onde quero, como quero, mas vou chegar, porque sou cabeça dura e faço acontecer. Alguns dizem que já consegui muito. Digo ainda precisar lutar bastante. 

O engraçado é lembrar que os seres do baixo astral foram embora. Antes das coisas acontecerem na minha vida, eles vinham no meu ouvido, dizendo que eu desistisse. Isso não ia dar em nada. Eu tinha na cabeça a frase do sonho e destino, mas não sabia dizê-la, porque ainda não havia escutado. Mesmo assim, sentia a força da mensagem. Eu tinha um sonho, me dedicaria a ele e batalharia muito para vencer, para ser e viver o destino sonhado. O resto é gente chata querendo ver sua derrota. Para mim, um dia, ia acontecer. Bastava eu me dedicar, lutar e esperar o resultado. Pouco interessava quando, mas um dia, eu teria meu nome em algum lugar legal, as pessoas gostariam do meu trabalho e eu estaria feliz por isso.

Conversando com Valéria Valenssa, falamos de sonho. Ela comentou os anos de batalha, as dificuldades para ficar tanto tempo sendo preparada para aparecer na tela da TV Globo, com o corpo pintado. Nada fácil, apesar de pensarem. Nada simples, como muitos imaginam. Valéria deixa claro não ser do tipo que espera acontecer. Na agência, está presente todos os dias, participa ativamente das decisões e posso dizer que existe sempre uma docilidade em suas palavras. O quê, aliás, serve de exemplo para muita gente presunçosa, que se acha a dona da verdade e enche de arrogância as palavras ditas, escritas e pensadas.

As meninas que aparecem na Agência com seus sonhos e destinos na mão sempre se surpreendem ao ver Valéria. De salto alto, bem vestida, ela adora usar branco, andando pela sala de atendimento, conversando animadamente, sem esquecer a responsabilidade. Vejo o olhar surpreso das jovens que chegam e o sorriso educado que nossa Globeleza envia como retorno do carinho. É quase como escutar: Você por aqui, Valéria. Sim, estou correndo atrás do meu sonho e do meu destino! Ela sempre ressalta como acredita no sucesso da agência TRIBO. As esperanças de cada um que chega são o combustível para o trabalho seguir.

Perguntei qual seria a profissão de Valéria. Ela sorriu. Não sabemos exatamente. Eu pedi a ela que pergunte ao Hans Donner, que, afinal criou a Globeleza. Comentei que acho interessante ela ter uma profissão que, acho eu, não existe igual no planeta. Afinal, na época do carnaval brasileiro, ela é a moça que rodopia na tela da maior emissora de televisão do país, avisando que o carnaval e o seu encanto estão chegando. Os olhos de Valéria brilharam. Ali vi o sonho e o destino. O sonho e o destino que todos temos, só que alguns lutam por ele e outros só os encontram quando assistem outros conseguindo os seus.

Por isso, não esqueça da frase que agora é nossa: Sonhar é uma grande responsabilidade, porque sonho é destino. 

 

O mundo não é de um só. Tem lugar para todo mundo, basta querer...

de Tammy Luciano (escrito em 29 de junho de 2004) 

Parecíamos um grupo que não chegaria em lugar nenhum. Em 1999, comecei a trabalhar na Casa dos Artistas. Logo me apaixonei por uma turma que tinha na cabeça o sonho do teatro experimental e iniciei com eles meu projeto de vida. Queríamos muito tentar chegar no espaço onde o teatro é o mais importante e todo o resto, esse desejo louco de mostrar sucesso, ficaria para um plano pouco visitado por nós.

E assim, seguimos nós, quando a Casa dos Artistas era apenas um lugar silencioso com cara de domingo. Pelo menos durante dois anos, fui a  única professora de teatro dando aula. Muitas vezes, as luzes da instituição eram desligadas e fícavamos apenas nós vivendo nossa arte na sala que chamamos de Caixa Preta. Aprendi muito com os alunos e descobri de cara que o sonho presente em mim também vivia neles.

Um tempo depois, Deus me deu a chance de mostrar meu trabalho em escala muito maior do que jamais imaginei na vida. O lançamento do meu livro fez minha carreira forte e com sentido. Os alunos sonharam o livro comigo, acompanharam toda a batalha, semanalmente sabiam as novidades e torciam pela minha carreira de escritora. Eu sempre os encorajei a sonhar, porque uma hora o sonho acontece mesmo. Depois do meu livro, uma certeza era latente. Meu sonho não seria só meu e outros alunos conquistariam seu espaço. Era questão de tempo!

 O primeiro foi Pedro Nercessian, apesar do tio importante, conseguiu seu espaço batalhando um teste na TV Globo. O sobrenome famoso pode ter influenciado, mas Pedrinho estava mais do que preparado para viver o Fabrício de Malhação. Uma alegria só vê-lo na novelinha. Em uma de suas primeiras aparições, ele sendo jogado para dentro da água por colegas, me fez lembrar de todas as nossas conversas. Emocionante ver meu aluno ali conquistando sua chance de mostrar arte. Chorei de orgulho e felicidade.

Agora, nova alegria. Meu segundo aluno tocando a face do sucesso. Agles Steib, anos batalhando também, só comigo fez alguns bons quatro anos de teatro, passou no teste para a novela das oito e será o Maikel Jeckson das Neves (o nome é assim mesmo que escreve!), na Senhora do destino. Esteve aqui em casa ensaiando para o teste a ser feito com Wolf Maya. Estava nervoso, mas depois de algumas leituras e algumas correções, eu disse a ele: O papel vai ser seu! Não tinha como, ele estava pronto, é a cara da personagem e vai fazer MUITO sucesso se Deus quiser. Aliás, ele já está nas chamadas. Fica de olho porque o menino Agles é cria da Casa dos Artistas.

O bom disso é que Pedro e Agles são amigos e tenho certeza que vão poder curtir bastante o lado bom da fama juntos. Só torço para jamais mudarem seu jeito de ser, porque feliz daquele que fica famoso e continua humilde na essência. As meninas vão adorar e a fessora aqui vai ficar orgulhosa de ter duas crias arrebentando na vênus platinada. Eles merecem! E merece todo mundo que luta. Acredite você também no seu sonho. Não durma um dia sem ter mergulhado fundo para realizar seu desejo de felicidade. A luz, o sol, a sorte, a estrela tem para todo mundo. Basta um pouquinho de paciência, determinação e verdade com a sua própria história.

Eu fico aqui torcendo por você. Mesmo seu sonho não sendo no mundo artístico, algum sonho você tem. Coloque em prática, faça acontecer...

 

Na corrida pelos testes da vida...

de Tammy Luciano (escrito em 26 de junho de 2004) 

 

Essa semana, estive em dois testes para comerciais. Confesso que é o lado chato da carreira de atriz. Normalmente, a gente acaba muito tempo esperando, muita gente se olhando, todo mundo querendo a mesma vaga. Sempre levo um livro e meu caderno de anotações. Uma vez até escutei: Eu deveria ter feito como ela e trazido algo para me distrair.

(Foto: Esse comercial eu fiz para uma campanha em defesa da educação pública. Pouca gente me reconhece nessa imagem. O papel de atriz é assim mesmo. A gente não deve ter medo de ser o outro, mesmo que a nova imagem fuja da nossa essência. Não ligo para isso. Modifico, deformo e transformo minha imagem na arte sem medo do que vão achar. Aliás, o palco é o único lugar que eu mando embora a vaidade sem me importar!)

Acredite se quiser, já fiquei oito horas esperando para fazer um teste que durou apenas dois minutos. Pior é estar em algum desses estúdios escondidos, onde não se tem nada perto para comer. A única alternativa é lembrar de levar alguma coisa. Eu sempre esqueço. O que tenho na bolsa são balas, mas elas não matam a fome.

No primeiro teste que fiz essa semana, decorei um texto com dois personagens. Ao chegar lá, entrei no estúdio, o câmera pediu que eu me posicionasse no famoso X. A produtora de elenco disse que falaria as falas masculinas. Estava dando uma última olhada no texto, quando alguém, uma voz feminina, gritou o famoso gravando. Joguei o papel no chão e comecei a falar. Devo ter atropelado o áudio, porque ela pediu que eu recomeçasse. Voltei o texto na mente e lá fui eu de novo. A produtora de elenco leu sem conhecimento do texto, com nenhum entusiasmo, respondendo minhas falas com frases secas que pouco me emocionavam. Foi lendo, lendo, lendo, lendo. Eu tentando criar emoção em cima daquela leitura. Além disso, ela estava do lado direito e eu precisava responder olhando fundo na câmera, posicionada no meio do estúdio.

O desafio dos testes é você conseguir se sair bem gravando com pessoas que nunca viu e na pressão de provar que saber fazer alguma coisa. Não sei como, consegui não errar o texto e fui até o fim, olhando para o lugar marcado, tentando responder com emoção a leitura da produtora. No final, antes que eu pudesse sair do estúdio, escutei a voz fria feminina pedindo a próxima candidata. Eu era apenas mais uma candidata. Não sei, juro que não sei, como alguns acham que essa carreira é mais glamour do que ralação.

O outro teste foi um encontro de amigos. Encontrei Marcelo Santiago, meu amigo de adolescência, que, durante a gravação, me deu a boa notícia que a filhota da nossa amiga em comum Adriana, mais conhecida como Nana, nasceu. Liguei feliz para minha amiga em Sampa. Parabéns, Dri! Quem também encontrei por lá foi o Airam Pinheiro, fizemos juntos um curso com o Maurício Farias, diretor da Grande Família que me dirigiu quando participei do programa. 

A carreira artística faz de você um ser forte para aceitar os desafios, as negativas, os testes e a luta diária de ser artista em um país que confundiu e embaralhou uma carreira inteira.

 

 

O amor no palco (o avesso feliz também)

de Tammy Luciano (escrito em 04 de junho de 2004)  

 

Fui descendo a minha rua. Um tímido sol dizia ser inverno, mas mostrava a chance de ser feliz mesmo no frio. Lembrei da época em que morava no Estados Unidos e esse tímido sol era tudo que tínhamos. Um ar gelado, uma luz angelical, meus passos simples, como eu gosto.

Alguém me avisa que sou romântica demais. Sou mesmo. Dessas incorrigíveis. Dessas da pior espécie que acredita, em pleno 2004, existir um cara predestinado a ela, para amar na saúde e na doença, na alegria e na tristeza...na alegria, na alegria, na alegria...

O querido Cico Caseira, diretor teatral de primeira, comentou, com curiosidade, eu ter feito dois espetáculos seguidos, escolhendo o tema amor, "Enlouqueceram e casaram" e "Mais no coração". Eu desconversei, falei que estava em um momento bem sentimental. Em parte é verdade. 2004 está servindo para colocar no lugar as coisas do amor. Ao contrário do ano passado, por exemplo, em que eu só tinha olhos para o trabalho. Eu não disse ao Cico, mas sou mesmo uma dessas que ama o amor e ama amar o coração apaixonado. 

Esse ano, tenho olhado meus sentimentos e meus desejos. Não quero mais ver minha vida pessoal correndo sem que eu lute por ela. Eu sempre quis dar muito certo na carreira, era quase um desafio, com tudo batendo forte em mim. Era necessário provar para as pessoas que eu era capaz. Era importante dizer a mim que eu conseguiria respeito como autora. Era valioso imaginar dias de sucesso como artista, fosse como escritora, atriz...no dia em que estava autografando meu livro na Timbre, Shopping da Gávea, Rio de Janeiro, acho que nunca contei isso para ninguém, um pequeno flash da minha vida passou. Fiquei ali, uma fila enorme de pessoas queridas querendo autógrafo, eu pensando que estava vivendo na vida real o que sonhara.

Depois, em casa, aquelas vozes ainda dentro de mim, o sucesso da noite dançando magicamente na minha frente, deitei na cama e olhei o teto. O teto do meu quarto não tem nada demais, mas acaba me fazendo sentir e pensar em várias coisas. Ali entendi que seria hora de lutar pela minha felicidade pessoal. Eu me achava feliz, não era. Tinha uma vida morna, uma história pacata que, simplesmente, não saia do lugar. Eu não podia viajar para muito longe sem que a realidade me dissesse o quanto o longe era apenas sonho. 

Hoje, sem ninguém ao meu lado, entendo estar no melhor momento. Eu sei o que eu quero. Minha capacidade de amar alguém intensamente e ser só dele, o que hoje em dia é uma raridade, não é pouca. E eu não quero mais aceitar felicidade de um lado só. Quero o avesso feliz também. Todo mundo quer. Alguns acabam aceitando relacionamentos medíocres por medo de terminar. Entretanto, a vontade de encher o coração de paz existe sempre, não importando a idade. Durante uma consulta no meu dermatologista essa semana, ele atendeu uma senhora. Ela havia colocado o famoso botox. Eu elogiei seu rosto, lisinho, remoçou alguns anos, imagino, ela sorriu: "Estou me cuidando, porque vou reencontrar um namorado de vinte anos atrás". Pensei em como sou boba em ter imaginado o fim das minhas emoções no início do ano, cogitando até estar velha para iniciar um novo relacionamento. Se eu dissesse isso para aquela senhora, ela pensaria até que eu estava brincando com o rosto de botox dela. Não existe tempo, nem idade para amar. Existe vontade. Todos querem. Eu comentei isso com meu médico, ele riu e disse que eu estou sozinha porque eu quero. Eu? Porque quero? Ninguém é um só por querer, nascemos para o duplo, mesmo que eu cisme em negar isso. Aos poucos, meu discurso está mudando. Sou mesmo um ser mutante...

Acho que tudo começou naquele dia, foi sim. Enquanto autografava os livros, assinava minha liberdade. Ela doeu, eu sofri, mas hoje não vai ter mais quem me faça viver meia verdade. Tudo começou ali, eu não sabia, mas começou. Ao mesmo tempo que tem tudo para ser uma vicissitude encontrar o amor, sei que ele está marcado em algum lugar dentro de mim. Pena não saber quando. Alguém pediu que quando eu estiver apaixonada, conte aqui. Imagina se eu, cristalina como sou, vou conseguir esconder.

 

 

Sobre estar pelada...
de Tammy Luciano (escrito em 19 de abril de 2004) 

 

Uma aluna me pergunta se eu posaria pelada. Tenho como hábito responder sem pensar, algumas vezes falo brincando e o outro leva a sério. De uns tempos para cá, criei um espaço maior entre o cérebro e a boca, espaço esse antes inexistente, e demoro mais alguns segundos para responder. Fala aí, fessora, você posaria pelada? Pensei que era engraçado ela me perguntar isso. Como mudamos, ora pois, essa carreira. A mocinha não quer saber se eu tenho vontade de atuar em Lisístrata, de Aristófanes, ou se já pensei em montar algum texto de Maria Claro Machado, muito menos o que eu penso sobre a influência de Plínio Marcos no teatro brasileiro. Anda logo, fessora, fala aí. Posaria pelada ou não?

Enquanto demorei os segundos combinados para responder, me perguntei porque ela me imaginou pelada. Sim, porque se perguntou, imaginou que essa pessoa aqui tem condições de mostrar as peles em uma revista. Ou alguém acha alguma outra definição para posar pelada do que mostrar peles? Pensei em dizer que não freqüento academia, já passei dos vinte e cinco anos há algum tempo e não sou modelo.

(Foto: Prova da minha aula no Profissionalizante da Casa dos Artistas. Os alunos André Innocêncio e Anna Paula Barros encenam "Anjo Negro" de Nelson Rodrigues)

Estamos confundindo tudo. Lá se foi morrer a carreira artística. Antes as atrizes de teatro conseguiam chegar às novelas. Agora, as modelos entram em seqüência, enquanto quem luta no teatro parece carregar a missão de ser para sempre desconhecida, mostrando talento para poucos. As modelos viram atrizes de uma novela para outra, posam nuas porque carregam belos corpos e seguem assim alimentando um mercado que exclui atrizes despreocupadas com a bunda. Só entra se estiver com os peitos em pé, querida! Se cogitar entrar na brincadeira, tem que imaginar a possibilidade de mostrar pentelhos para desconhecidos. Ou alguém acha alguma outra definição para posar pelada do que mostrar pentelhos? 

Sejamos francos, colocaram magia em mostrar o corpo em páginas de revista, mas na prática é como exibir carne em açougue. Já pensou na quantidade de gente que olha uma revista de pelada? É sempre maior do o número de pessoas que comprou a dita cuja. Cada uma delas se multiplica por muitos olhos curiosos, tarados, incrédulos e por aí vai. Raras são as revistas que recebem apenas dois olhos. Elas acabam sendo vistas em rodas de amigos, em banheiros públicos, em academias, parece que essa última a seleção brasileira amou, até que a nova revista chegue e a alma da pelada do mês possa descansar em paz.

Você vai me mandar cair na real e olhar o dinheiro que essas mulheres ganham. Realmente, imaginar que alguém passou dois dias mostrando peles e vai ganhar um milhão por isso é de babar. Parabéns para as mocinhas que conseguem! Ou você acha que capa de Playboy é fácil? Adoraria que autores, escritores, roteiristas ganhassem tão bem assim ao escreverem seus textos. Acho que em meu próximo livro, vou explicar que fiquei nua nas palavras, tirei a roupa das letras. Quem sabe chego perto de ganhar algum troco a mais? Dinheiro não é tudo, mas nossos valores trocados enriquecem apenas pessoas com talentos superficiais. Quando podíamos negociar melhor isso, dividir pelo menos.

Se eu tiro a razão de quem tem coragem de sair nua em pêlo, mostrando peles e pentelhos? Não. Tem quem pague, tem que ganhe, tem quem veja, fazer o quê?

Se eu posaria pelada? Tô escrevendo outro livro, serve?

(Para título de informação: Uma famosa atriz, que posou pelada esse ano, afirmou em entrevista jamais ter estudado teatro na vida. Uma das últimas atrizes que conquistou fama nacional depois de ralar anos no teatro foi Camila Morgado que nunca posou nua).

 

 

Sobre a peça Geraldo Pereira

de Tammy Luciano (escrito em 05 de maio de 2004) 

 

Muita gente reclama dos textos tristes que ando escrevendo aqui no Blog. Amigos perguntam se estou bem, leitores mandam mensagens de otimismo, correntes falando da necessidade de confiar em Deus etc etc etc... Quero acalmar vocês, dizer que estou ótima! De verdade. Aqui no Blog, acabo escrevendo mais melancólica, mas posso garantir que a vida real vai bem, ando curtindo meu mundo novo direitinho. Muita coisa boa acontecendo, posso garantir. Ando feliz, me cuidando e planejando minhas conquistas. Estou pelo mundo, prestando atenção nesse universo lindo.

(Foto: Bruno Dias e eu antes de começar o espetáculo "Enlouqueceram e casaram". Nossa cara de pateta está o máximo, Bruno! Também com esses figurinos. Já estou com saudade!!!)

Fui ao teatro sozinha assistir "Geraldo pereira" no Miguel Falabella. Sozinha, sozinha mesmo, sem ninguém. A sensação foi boa. Me sinto como um bebê que aos poucos começa a andar sozinho e descobrir um mundo um pouco acima do que sua visão podia ver.

Assusto os outros quando digo que a solidão tem sido boa companheira. Fazer o quê? Ela é aquilo que é, não faz tipo, não me enrola, não promete, não mente, não me deixa mais só do que declara desde o início em que aparece. A solidão é isso e pronto.

Na ida para o teatro, as músicas que andam dançando na minha cabeça atualmente. O bom som que adoro. Eu cantando em voz alta. Alguém olha minha expressão de animação, minha cena solitária no carro e sorri. Outro alguém faz cara feia. Quantas vezes uma atitude minha recebe sorriso e caretas como retorno ao mesmo tempo? Fico sem entender como uma mesma ação recebe duas reações tão opostas.

No Shopping, cheguei mais cedo, de propósito, para ter a sensação de andar só, pensar só, respirar só e ser só. Vitrines. Vitrines com roupas que eu jamais usaria. Vitrines com sapatos que eu adoro olhar, afinal meu gosto por pé me faz admirar a arte dos criadores de sapato. Tenho falado muito em pé nos últimos dias. Voltei a andar com os meus próprios sem ajuda de ninguém.

Detalhe: sentei para assistir o espetáculo na cadeira 2 da fila A. Ou seja, cara no palco. Sozinha com a cara no palco.

A peça "Geraldo Pereira" conta a vida do compositor de samba que tantas músicas nos deixou. Ali, assistindo sua história, um homem com uma vida pessoal cheia de tantos desencontros, me perguntei se o artista foi feliz no fim. Não. Morreu triste Geraldo Pereira. Morreu depois de muito beber, brigar pela rua e perder a mulher amada, Isabel, porque preferiu valorizar o sexo com mulheres desconhecidas. Acabou arrependido. A mulher amada não voltou mais, apenas quando ele morreu, velando o corpo de Geraldo. Triste história.

Curioso conhecer a maneira como o compositor fazia suas músicas. Fatos do dia a dia eram facilmente transformados em letra e melodia. Conheceu uma baiana que não sambava e logo a moça virou tema de samba. O amor por Isabel, os momentos na música, tudo era samba. A arte de cada um é o que vivemos, escutamos e somos. Minha arte alguns dias é triste. Também é feliz. Eu não sou apenas vazio e dor.

A graciosidade do espetáculo envolve o talento dos atores. Alguém pode explicar porque nosso país valoriza tanto os anti-artistas e deixa gente boa desconhecida sem maiores divulgações? O merecimento no Brasil anda caindo em mãos erradas. Conversando com a atriz Monique Lafon, essa semana, ela disse: "Nossa carreira acabou". Triste demais. Triste como foi a vida de Geraldo Pereira. A direção do espetáculo, mesmo tendo seguido no tom mais cômico, deixa  a gente pensando sobre esse mundo de sucesso que ao mesmo tempo traz tantos vazios dentro da gente.

Ao final do espetáculo, voltei, escutando as mesmas músicas animadas que ouvi na ida. Antes só do que mal acompanhada, penso com o som do carro nas alturas. Boa teoria essa. Não vou enfiar alguém nos meus dias só para me exibir por aí. Estou me divertindo com a vida atual e ela está limitada a mim. Aprendi a me virar sozinha e não tem sido ruim. Pessoas andam acompanhadas para não ficar só. A solidão é mais feia de fora do que dentro. Quando estamos nela existe uma dose de paz que acalma os dias. Diz o poeta que é difícil ser feliz sozinho. É difícil, mas não é impossível. Por enquanto, é assim que vamos, ou melhor, vou.

Ainda dirigindo, um outro carro pára do meu lado. Eu cantando, me senti olhada e, vestindo a vergonha, olhei para ver quem me observava. Um rapaz sozinho. Seria ele um representante da solidão como eu? Não sei dizer. Sorriu. Sorri em resposta. Difícil saber se ele sorria para mim ou de mim. Denunciou que ia dizer alguma coisa. O sinal abriu, resolvi acelerar e partir. O que o rapaz ia dizer, não sei. A noite terminou como começou. Eu sozinha, cantando, vivendo por aí...

 

Seguir a arte e ser feliz

de Tammy Luciano (escrito em  25 de abril de 2004) 

 

Criei uma espécie de acordo diário comigo. Aquele dia, esse dia, tem que render, tem que ser bom, divertido, com conquistas. Ao deitar a cabeça no travesseiro, tenho que dizer, valeu! Os dias têm sido bons. Momentos especiais com amigos queridos. Conversas longas com meus pais, sempre na cozinha, onde é o ponto de encontro familiar. Ficamos ali, embalados pelo cheiro da boa comida da minha mãe. As opiniões sendo expostas, os pensamentos honestos, os pedidos familiares para que eu me concentre em ser feliz. Eu prometendo ser feliz, mesmo que isso faça o mundo achar que não sou lá muito boa da cabeça. 

Alguns dias, fico rindo sozinha. Não sou nada do que esperam de mim e só faço aquilo que ninguém acha possível. Definitivamente, sou um ser estranho. Estranheza essa que me alimenta, me faz viva. Acredito no que existe dentro de mim. Idéias fervilhando. Tratos solitários de momentos que vou viver. Porque faço a cena na cabeça e um tempo depois ela acontece. Sou a rainha de desenhar mentalmente meu futuro. Errei algumas vezes. Errei feio no início desse ano. Não aconteceu nada do que minha cabeça idealizou. Quando erro, descubro que o destino estava mais certo do que eu. E quando sou eu que levo a melhor, adoro, porque as cenas seguem como escrevi o roteiro da minha vida.

Fui na casa do André, amigo querido, nesse feriado. Uma turma grande reunida, violão, vozes, música boa, a noite correndo sem que a gente se desse conta. Todos amadores, cantando na emoção. Até que alguém levanta, André com o violão na mão, e ela desanda a cantar como fazem as cantoras profissionais. Melodia boa de escutar, voz de veludo que vai lá em cima sem perder o ritmo. Música que não desafina na voz da moça. Os olhos fechados, ela cantando com a alma. Todos com a expressão meio chocada. Até quem sabia que ela cantava se emocionou. Quem não sabia ficou com vergonha de ter cantado antes ou se perguntou porque diacho passou a noite tagarelando melodicamente se ela faria isso muito melhor.

Um tempo depois, a cantora sentou do meu lado. Falamos da benção de Deus que era a sua voz. Perguntei se ela nunca pensou em cantar profissionalmente. A história era mais longa do que eu imaginava. Ela, simplesmente, ama cantar. O problema gira em torno da negação da mãe que é completamente contra uma possível carreira artística da filha. Religiosa ao extremo, a mãe não aceita uma filha cantora. Além de dizer não para a voz linda da pequena que colocou no mundo, a matriarca a pressiona a não seguir, não lutar. Se lutando o meio da música já é difícil, imagina sem batalhar.

Sabe se lá porquê, fui colocada para estar sentada ao lado da cantora. Em todo caso, acabei falando de mim, do quanto acreditei que seria capaz de realizar, ao invés de somente assistir o mundo da arte passando ao meu lado. Disse a ela que entendi que muitos anos depois do início do sonho, vem a pergunta chave: o que você fez para realizar seu desejo antigo? Expliquei da alegria de hoje me olhar no espelho e ter a certeza de que está valendo demais meu suor. Inevitavelmente, todos nós responderemos um dia a pergunta da realização interior. E estaremos sozinhos, sem pai nem mãe, sem ninguém por perto. Essa pergunta acontece quando está apenas você e você. Mais ninguém.

Falei tanto sobre a necessidade de realizarmos nosso sonho, enquanto ela me olhava emocionada. Sabia exatamente do que eu estava falando. Disse que sabe da certeza interior, desse desejo honesto pela arte. Acredita que um dia não vai ter mãe nem ninguém como barreira no seu caminho. Não quer fazer outra coisa. Quer cantar. A gente quer escutar. Está formado, então. Ah, como eu queria a vida mais fácil para todo mundo. Comentei com a cantora que meus pais no início se assustaram um pouco com meu desejo de atuar, escrever e somente o tempo explicou que não seria eu a mocinha de salto alto e blazer a andar no fórum da cidade. Eu era do mundo do palco, com minhas calças coloridas, pintadas, meus cabelos soltos, meus figurinos, minha madrugada, meu sono que só acaba ao meio dia. Hoje, meus pais não só incentivam como passam horas comigo conversando sobre a minha carreira, conquistas e planos. Minha mãe, ao ser perguntada outro dia sobre não ter netos, respondeu: "Tenho sim. Eles estão em todas as livrarias do Brasil. Minha filha me deu netos literários!". E darei novos netos, mãe, literários e humanos, netos lindos que chegarão no momento certo. 

 

 

Minhas fragilidades de artista e mulher

de Tammy Luciano (escrito em  19 de abril de 2004) 

 

(Foto: Eu e Diego Braga. Ator que adoro de paixão!)

Estou aqui, pensando no fim de semana agitado. A vida me puxando pela mão, me fazendo viver um monte de coisas. Bons montes de coisas no momento. No domingo, enquanto agradecíamos a platéia com casa cheia, olhei bem aquelas pessoas e tentei registrar mentalmente aquela imagem. O sorriso no rosto de cada um, o barulhinho do aplauso que tanto bem nos faz. Uma alegria sem tamanho que rondava quem estava no palco e quem estava de pé, encerrando com chave de ouro o fim de semana. 

Essa semana, fui de noite com alguns amigos ver o mar. O céu lindo tão certo, tudo tão na paz. Olhei aquela imensidão azul escura e consegui ver Deus naquele céu. Olhei o mar. O mesmo Deus iluminava a noite. As estrelas ao longe me fizeram pensar no grão de areia que cada um de nós é e no quanto nos achamos grandiosos, quando na verdade somos um pequeno ser no universo.Nossos problemas, aqueles que a gente consegue ver como enormes, parecem pequenos com o céu de estrelas que sorri pacientemente para nós.

Eu penso na pessoa que sou. Nas minhas fragilidades andantes, porque onde estou, elas vão atrás, com seus passinhos atropelados, seus rostos assustados, uma fragilidade puxando a outra, cochichando cheias de medo. Vou seguindo, deixando que elas segurem a barra da insegurança. Então, a fila acaba maior do que deveria. Estou eu, impávida, acreditando na força de ser, mas atrás de mim caminham as moças fragilidades e a insegurança, moça essa pior de todas, porque tamanho receio fez dela uma pessoa sem cor, pálida, sem brilho. Acha que se demonstrar alegria, luz, vai chamar atenção demais. O medo faz da moça insegurança um ser sem graça no planeta.

E isso não é tudo. Minhas fragilidades me fazem acreditar que não serei capaz de sair do lugar onde estou, mesmo sendo aqui um aconchego de carinho e tranqüilidade. Caso não fosse, as fragilidades se divertiriam mais e diriam que eu seria condenada a viver o caos, porque não tenho capacidade de ir tão longe. Também são as fragilidades que me dizem ser muito difícil eu conseguir formar uma família, com alguém especial, tendo filhos brincando felizes no jardim: "Ninguém tem tudo que quer. Já anda realizada no trabalho? Agradece e segue, porque felicidade total não é possível. Já tem a companhia da labuta. Já tem o filho livro nas livrarias, aceita e encerra o tema". Minhas fragilidades alguns dias são bastante cruéis. Foram elas que me chamaram de velha quando eu tinha apenas 19 anos. Me disseram também que eu estava horrível, quando passei alguns dias chorando. Elas acabam sendo amigas íntimas daqueles que de alguma maneira torcem para algo dar errado por aqui. Posso com isso?

Só que ali, na praia, as fragilidades sentaram longe de mim. A insegurança foi ficando extremamente incomodada com minha maneira de confiar em algo MUITO maior do que ela. As moças fragilidades bem que tentaram não dar atenção ao meu momento. Ficaram por algum tempo molhando os pés na água, correndo na areia molhada pelas ondas, levantavam os vestidos com uma graciosidade que eu, confesso, me pergunto se as fragilidades não tem algo mais do que apenas fraqueza dentro delas. Charmosas, pelo menos, as mocinhas são.

Olhando o céu, perdida em estrelas, de repente, eu, minha insegurança e todas as fragilidades presentes ficamos congeladas. Sim, lá estava ela, uma estrela cadente. Linda no céu, rápida como só ela sabe ser e exata, confirmando que eu tinha direito a um pedido especial. Fiquei tão nervosa que fiz dois. A estrela sorriu. Entendeu o recado e foi embora levando meus dois pedidos atropelados, engasgados pelo susto do bem. Prometeu ver o que podia ser feito. Espero não entrar em uma fila muito demorada de pedidos cadentes.

Olhei para os lados, vi a insegurança caminhando ao longe, indo embora, pés descalços pelo asfalto. Enjoou de mim e ainda gritou ao longe: "Volto quando você estiver triste!" As mocinhas fragilidades, simplesmente, desapareceram. O perfume de flores delicadas foi embora junto e aquela imagem de moças com aparência de ninfa, pelo menos por enquanto, está apenas na minha mente. Elas ainda não voltaram aqui no meu quarto, fazendo aquela bagunça de sempre, com vozes esganiçadas, repetindo em coro que eu não sou capaz de nada.  

Aos poucos, fui percebendo o céu mais claro. Era o amanhecer chegando. Voltei para casa, cheia de fé na estrela que me visitou os olhos, entendendo que um risco de luz no céu agora sabia o que eu quero e espero dos dias. É esperar e viver.  

 

 

Primeiro espetáculo, depois do hiato!

de Tammy Luciano (escrito em  17 de abril de 2004) 

  

Aquela sensação ainda está em mim. O olhar vivo das pessoas, casa cheia, vozes, atores andando de um lado para o outro, o calor das mãos dadas, a oração falada antes da apresentação. Dissemos o famoso merda, querendo reafirmar que desse tudo certo, que a peça acontecesse da melhor maneira, que nosso público sorrisse com a gente. Eu queria muito que "Enlouqueceram e casaram" fosse um grande encontro, um recomeço.

É o primeiro espetáculo depois do hiato que passei. Meu primeiro grande momento sozinha. Era hora de estar em cena, sabendo que quem sempre me apoiou nas estréias não estaria lá. Sim, eu tinha alguém especial, me dando o maior apoio sempre que colocava no palco uma nova peça. A vida, você sabe, nos separou e a estréia de ontem seria a estréia de um novo ciclo. Eu sabia que ao acabar o espetáculo, olharia para a cabine de som e ele não estaria lá. 

Sentada em cena, congelada, vi na penumbra daquela iluminação proposital, a entrada da platéia, o coração disparado, batendo demais, eu achando que teria um colapso nervoso. Imaginei como seria terrível a autora, diretora e atriz da peça tendo um ataque cardíaco na frente do público. Começamos a peça e de repente o que era tensão virou euforia, alegria e paz interior. Os atores que esperavam seu momento de entrar em cena viam com alegria os acertos no palco. Os atores que saíam de cena chegavam na coxia com um sorriso no rosto. Estava ali nosso filho, nosso espetáculo, nossa nova alegria. Deus é muito bom comigo, porque para todos os lados que olhei, vi amigos e pessoas me ajudando. Eu estava ali vivendo o imenso valor da amizade. Pessoas queridas demais doando seu tempo em nome de um laço de carinho.

Só sei hoje seguir, porque sinto a energia positiva das pessoas. Não acredito nas pessoas que não gostam de mim. Aliás, as pessoas que não gostam de mim não existem. Eu não consigo ver quem não me interessa. Não escuto voz ruim. Não bate mais em mim sentimento pequeno. Ele vem na minha direção, mas com todas as bênçãos, volta antes de bater aqui. A pessoa que mastigue sua dor transmitida. Tudo já voltou para quem mandou.

Meus olhos só brilham na direção desse carinho que recebo. Você não tem idéia de como sou privilegiada. Agradeço todos os dias os abraços recebidos, essa gente querida que divide momentos comigo e acredita que eu sou capaz de alguma coisa.

No final da apresentação, agradeci olhando aquela platéia linda, o teatro cheio, aquela energia, o barulho do aplauso registrado na mente, para sempre arquivado na cabeça. Principalmente, quando eu estiver bem velhinha e os aplausos forem saudade. Agradeci a presença de todos, expliquei que aquela apresentação era dedicada a todos do planeta que sonham em estar no palco e infelizmente não têm condições de participar dessa dádiva que é o teatro. Depois, contei que algumas pessoas perguntaram qual foi o tamanho da maconha que eu fumei para escrever aquele texto. Disse em cena, mais que aberta, que não fumo, não bebo, não uso nenhum tipo de alucinógeno. Minha droga do bem é o teatro, porque me dá euforia, alegria, animação sem precisar de nada químico correndo em mim. E mesmo que meu texto parecesse uma loucura, mesmo que as pessoas queiram saber de onde tirei aquela história louca, explico que saiu tudo da cabeça mesmo.

Bruno Dias, ator da peça, interrompeu minhas palavras. Naquele momento, depois de olhar a cabine de som, eu já estava chorando. Lágrimas de emoção, alegria, caíam sem que meu dedo de diretora tivesse ensaiado. Bruno leu uma carta linda e um trecho dizia tudo: "Passamos momentos felizes durante o curso. Nos últimos três meses, partilhamos de momentos difíceis com você. Alguns veteranos, outros iniciantes, mas sempre juntinhos. Tammy, gostaríamos de agradecer a oportunidade desse grande encontro. Pedimos desculpas pelos erros, alguns por experiência na arte e os demais por episódios pessoais".  Talvez a platéia não soubesse as entrelinhas daquelas palavras, mas nós, grupo, sabíamos o que cada linha dizia. Chorei muito, como nunca em apresentação nenhuma na minha vida. Chorei por estar começando uma nova fase com pessoas tão especiais ao meu lado. Amo cada uma dessas criaturas que me fazem sentir especial.

Ninguém encontra ninguém nessa vida por acaso. Saindo de cena, entendi que não tenho mesmo nada de especial. O charme é do teatro, essa arte viva que me faz esse ser andante e realizado, e das pessoas que divido minhas criações. A vida está na simplicidade das coisas. Obrigada por esse momento!

 

 

Cansaço, ensaio e letras perdidas

de Tammy Luciano (escrito em  13 de abril de 2004) 

 

Quem me olha de longe, sorrindo, dançando pela vida, por onde passo sempre brincando, não tem idéia como a mente anda acelerada. Hoje, tentei colocar um ritmo mais lento no dia. Em vão. Pessoas telefonam, pessoas precisam de mim, eu preciso de pessoas, me sinto andando parada e parada, ando sem parar. Como sempre sigo querendo tudo demais ao mesmo tempo, resultados imediatos de coisas que necessitam tempo. Isso é a minha cara!!! Eu gosto da vida como microondas e tenho pouca paciência para comida feita no fogão.

Piorando o quadro do meu dia, a pintura embaçada, sem imagem definida, o ensaio do espetáculo acabou sendo ruim. O que para alguns atores foi um balde de água fria. Para mim, foi o normal de ensaio. A gente sai chateado, cheio de dúvidas a serem resolvidas, mas mesmo assim é o que vale, porque as incertezas nos fazem mais atentos. No nosso caso, tudo fica por conta da irresponsabilidade de uma só pessoa (eu tenho 18 atores em cena) que entende o teatro apenas como apresentações públicas, esquecendo que ensaio é necessário. Quem sou eu para explicar que antes do aplauso é necessário labuta insistente e inconformada? Não sei mais se tenho paciência com pessoas que só me apresentam problemas, ainda mais no caso do meu teatro que é solução no meu caminho. Chegamos até aqui, agora temos que seguir até o fim. 

Do lado de fora do teatro, escutei todos os comentários, mas minha mente não estava mais ali. Acelerada como sempre, a cabeça já estava no dia de seguinte do ensaio, cheia de imagens de acerto. Meu otimismo continua sem limites. Os ensaios essa semana serão seguidos, sem pausa. Espero, até a estréia, preparar tudo. Por isso, enquanto vozes corriam ali na reunião informal pós-ensaio, eu estava distante. Alguém comentou minha aparência preocupada. A imagem da Tammy cansada, vendo bocas falantes por todos os lados, não era apenas ligada ao ensaio. Eu ando cansada com os dias. Não tenho nada de perfeita, imbatível e forte. Alguns pensam que eu sou aquela que nunca cai, agüenta tudo essa moça! Tudo?

Estou cansada. Cansada. Cansada.

Cansada. Ando um pouco cansada de outras coisas. Ando cansada, cansada. Pode ser que até o fim da semana, eu consiga dormir direito e acordar melhor. O que, confesso, acho difícil. Então, já estou cansada só de imaginar como vai ser essa semana. Também estou querendo falar menos de mim. Até porque ando processando acontecimentos. Por isso, digo que anda difícil falar de mim. Estou naquele famoso meio termo, quando algumas novidades seguem, mas ainda não são fatos definidos.  Assim fica difícil falar de mim, mesmo que alguém queira saber. Ando cansada de procurar palavras, quando somente dentro de mim, elas andam no sentido certo. Só eu ando sabendo dizer para mim o que sinto. Alguns dias me pergunto o porquê de  escrever, abrir meu verbo. Não ando me sentindo confortável para tagarelar meus sentimentos. 

Melancolia e insatisfação. Pode durar até amanhã. Pode acabar daqui a duas horas. 

Estou indo dormir. Espero acordar melhor amanhã. Preciso de sono, muito sono. São cinco da manhã. Melhor escrever mais cedo, para publicar textos mais animados. O que vale nisso tudo é acreditar demais no poder do bem. Fica com Deus, porque você é importante para mim, certo?

 

 

No papel de professora

de Tammy Luciano (escrito em  13 de março de 2004) 

 

Talvez eu jamais tenha planejado ser professora de teatro. Talvez, aliás, com certeza, tenha planejado um monte de coisas na vida que acabaram não acontecendo. Isso deve ter acontecido com você. A vida levando a seguir caminhos novos, situações não esperadas, mas você foi, foi e de repente encontrou uma felicidade diferente e até melhor. Minha vida teve muito disso, a felicidade diferente e até melhor. Quando eu planejaria escrever uma biografia e me realizar tanto? Quando eu seria tão feliz em dar aula na Casa dos Artistas? Quando me imaginei tão escritora? Ter um Blog? E vida pessoal? Nossa...tantas coisas aconteceram, tantas pessoas conheci, tantas histórias vi, tanto amadureci. E cada dia mais entendo minha vida ser uma felicidade diferente e até melhor. Meu destino tem planos que não sei quais são, mas deixo que me leve. 

Ontem, na Casa dos Artistas, fizemos uma apresentação na sala de aula. Cenas que gravei para que os alunos pudessem ver depois. Eu não só comentaria sobre as cenas, como falaria mais sobre dificuldades e acertos de cada um. Com a ajuda do vídeo, seria mais fácil explicar e indicar as questões. Assim, depois que combinamos como seria feito o processo, seguimos gravando. Em uma das cenas, uma aluna esqueceu o texto duas vezes. Eu disse apenas: "Segue!". Ela seguiu. Ao final, saiu, e lá fora, enquanto arrumava as roupas, chorou. Eu abri a porta, disse que ela não chorasse e escutasse primeiro o que eu tinha a dizer.

Fim da gravação. As cenas foram ótimas. Eu feliz demais por conseguir trazer essa galerinha boa para mim. Porque, na verdade, eles não têm que atuar para mim, precisam fazê-lo por eles. Um sentimento de dever cumprido em todos nós, fomos assistir à gravação. Na cena em que a aluna errou, antes que eu dissesse algo, ela, novamente, estava chorando. Expliquei que algumas vezes nós não erramos na vida, mas também acabamos fazendo algo absolutamente sem brilho. Foi, fez, mas sem nada demais. Ela havia errado, mas havia atuado como nunca antes. Havia sido grande na cena e encenado com brilho e vontade. Só que eu não podia falar apenas do lado atriz, seria necessário comentar a pessoa: "Você é uma pessoa ótima, doce, mas precisa entender que é hora de acreditar em você. Pare de se diminuir. Está sempre nos grupos achando que eles estão quebrando seu galho. Não pode ser assim, você tem potencial". Ela voltou a chorar. 

Normalmente, as pessoas sempre se assustam com meu jeito sincero de falar. Isso já me fez perder pessoas e, principalmente, fortalecer relações. Sempre fui assim. Piorei ao longo dos anos, mas sempre fui de falar. Era hora daquela aluna entender que precisava ser sua própria parceira na vida. Não existe ninguém melhor do que a gente. Quem não está com a gente é que está perdendo, menina! Falei para ela dessa necessidade de acreditar no nosso potencial. Brinquei, claro, explicando que não era para ela invadir a aula se achando melhor do que todo mundo e dizendo ser boa demais para a turma. Seria sim, ela confiar em estar em um grupo de igual para igual, falar sobre seus sentimentos sem que eles, antes mesmo de saírem de sua boca, fossem bobagens. Qualquer um fala bobagens. 

Vimos a cena dela. O esforço intenso de uma pessoa que ama ser atriz. Em cada marca certa, eu olhava para ela. Olho no olho, tentando explicar na prática minha opinião sobre estar na hora de confiar nela mesma. Ela me olhava, lágrimas caindo, concordando. Rimos de algumas situações criadas por ela, como bater com o leque na mão do seu parceiro de cena. Atitude que nem o ator esperava, mas funcionou magicamente. A turma riu com a moça que não se achava boa para fazer ninguém rir. A turma se emocionou com a moça que não se achava capaz de emocionar ninguém. E a turma inteira dividiu com ela ser hora de mudar. A gente precisa saber a hora de mudar. Você pode ir, mas chega uma hora que diz: "Chega!". Pode ser difícil, mas é necessário. Minha aluna entendeu ser hora de dizer chega para o sentimento de diminuição. Ao vê-la chorando, depois de tudo que falei, perguntei: "Você está chorando de alegria, né?". Ela sorriu e concordou. A moça que não se achava boa para sorrir, assim o fez. Muitos sorrisos de alegria para você, menina!

 

 

Os chinelos da operária

 de Tammy Luciano

29/10/2003

(foto reprodução: Diego Braga e Tammy Luciano no espetáculo "Anjos que falam")

 

 

Um dia, conversando com Guti Fraga, meu querido diretor na Casa dos Artistas, ele se autodenominou um Peão da Cultura. O meu olhar superficial rapidamente detectou os chinelos no pé do peão. Entretanto, Guti falava além do vestuário simples, comentava sua alma além da imagem óbvia. Fiquei uns dias pensando nisso. Pensando que então, teríamos no teatro, ou no mundo artístico, não somente peões, mas damas da cultura, empresários da cultura, reis da cultura, filhos da cultura e até o lado ruim, com assaltantes da cultura, ladrões da cultura, espiões da cultura, vagabundos da cultura e por aí mais onde a imaginação for e a realidade comprovar.

Durante os dias que pensei nessa declaração do Guti, me perguntei quem seria eu nesse universo de cultura. De que maneira me comporto quando faço uso da palavra arte? Não sei ao certo se sou apenas uma só, ou se é o teatro responsável por me arrancar as roupas e me vestir como quer, cada hora com um figurino diferente. Sou a batalhadora que ensaia sem parar e consegue seguir trabalhando mais horas do que podia supor no passado. Sou a estagiária sonhadora que sempre imagina seu projeto sendo aceito por todos, sendo divulgado na imprensa, sendo elogiado pela crítica, sendo ganhador de muitos prêmios. Sou a dama bem vestida que recebe a platéia na porta sorridente, agradecendo a presença de cada um. Sou a atriz que adora estar no palco, abrindo os braços para sentir mais um pouco daquilo que nem sei explicar. E sou a funcionária que corta tecidos, pendura fios, varre o palco. Sou a religiosa que torce para dar tudo certo, sendo também a mulher que agradece mais um dia de trabalho.

Por isso não me importo com mais nada. Não quero saber o que acontece lá fora. Estou interessada com o teatro. Só acredito nisso. E não paro para falar, só falo andando, resolvendo meus sonhos teatrais. Não me importo se inventaram com o teatro essa coisa chamada fama, sucesso, se só com isso conseguimos o devido respeito. Porque várias vezes percebo que a fama é abrir sua intimidade e as notícias de agora só falam de seus dramas pessoais. Eu não vendo jornal. Pessoas simples não vendem jornais. Na era do escândalo quem trabalha no teatro é que menos interessa. Por isso não saio daqui. Não quero apenas aparecer por aí de sorriso bonito sem ter o que falar. É preciso lutar para manter o fio de arte que ainda luta para ser vivo.

Não sei se sou apenas boazinha e quero manter viva a arte, ou na verdade sou uma dessas vampiras que só pensa nela. Porque não escondo de ninguém que ser funcionária, no sentido de funcionar, da arte é o que me mantém viva. Alguns dias, acho viver chato demais. Em outros, acho as pessoas insuportavelmente chatas. Alguns dias, não consigo levantar da cama porque meu corpo dói. Certas tardes, me pergunto o que estou fazendo nesse planeta de homem-bomba e prostitutas sem rumo. Somente o teatro me acaricia os cabelos e me prova que vale sim seguir. Adoro quando, tateando no escuro, encontro meus chinelos teatrais, me torno a moça de pijama caminhando por uma cena marcada e me torno outro alguém que jamais imaginei ser. Mudo minha identidade e a polícia não me prende. Somente no palco dupla identidade é permitida.  

Cá entre nós, o prazer de usar um chinelo é muito maior do que uma sandália de salto alto. E é assim que eu quero andar e ser. Uma operária cheia de fé na cultura.

 

 

Sem Sem autor autor

de Tammy Luciano

02/09/2003

Com tristeza no coração, li a notícia: "O Prêmio Shell de teatro, único a contemplar os profissionais da área depois da extinção do Prêmio Governo do Estado, não conseguiu destacar, entre as peças que estavam em cartaz no primeiro semestre no Rio de Janeiro, nenhuma que merecesse uma indicação ao prêmio de melhor autor". Porque isso não é apenas uma notícia, mas um pedido de socorro, um aviso, um toque do futuro em cada um de nós envolvidos com a arte nesse país.

E a culpa é de todo mundo. Não só do autor. Nos tempos modernos, precisamos de uma forte dose de otimismo para aceitar o mundo cultural, hoje esmagado pela futilidade. Os não atores atuam mais do que os atores; os escritores são diariamente trocados por estrangeiros. Que resultado, afinal, esperavam receber? Uma atriz outro dia tentou explicar sua decisão de montar um texto  estrangeiro: "Não temos muitos talentos na escrita nos dias de hoje". Nelson Rodrigues também não era bom no tempo dele e somente os anos deram ao nosso autor da intimidade brasileira a importância que tem hoje.

E cá entre nós, as máfias culturais só pioram tudo. Caso você não esteja lá, não será convidado. Com grau de parentesco então fica mais fácil. Um amigo escritor comenta: "Mandei uns textos para aquele diretor e ele jamais respondeu". O mesmo diretor montaria depois um texto estrangeiro, pela centésima vez em cartaz no Brasil. Mudam os atores, mudam os diretores, os autores são os mesmos. Onde está a ousadia de nossas produções em apostar em algo novo? Ou teremos sempre que assistir à personagem principal indo na janela de casa, sofrendo o conflito da trama, vendo a neve que caindo lá fora. Neve? A gente não podia fazer uma pessoa falando dos Silva, do sertão, das metrópoles brasileiras? O que temos lá, temos aqui. E a neve que existe lá pouco interessa aqui.

Porque não basta apenas ser um bom escritor de teatro, é preciso ser lido e aceito por atores, diretores, produtores. Se você é o desconhecido fulano de tal... Quem? Se você não é amigo de ninguém e apenas se dedica a criar sozinho, em casa, sem correr atrás de escândalo, você tem 10% de chance de conseguir vencer.

Se nossos autores não estão conseguindo produzir bons textos é por falta de visão de quem diz isso. Porque em suma, os bons autores existem, os novos bons autores só não são lidos. E os bons textos já nasceram. E as boas idéias rondam o planeta. Os bons autores só não têm quem os escute e guardam seus textos na gaveta, no arquivo do computador ou mandam para alguém e não recebem retorno algum. Onde está a oportunidade na prática? Quem por aqui abre um espaço para experimentações? Vivemos no mar do desânimo, da ausência de resposta. Esperando na janela cair uma neve que nunca virá. Afinal, isso aqui é Brasil.

 

 

 

 

Rogério Ator Cardoso

de Tammy Luciano

24/07/2003

 

Quando perdemos alguém da arte temos a triste certeza de não mais ter aquele talento invadindo nossa vida. Hoje morreu Rogério Cardoso. Atores quando partem ficam eternizados nas imagens e aparições feitas ao longo da carreira. Rogério deixou muitas.

O que Rogério tinha demais dos outros? Mesmo em papéis pequenos ou em momentos de pouco brilho, ele era luz e tinha no palco e na TV seus sucessos. Por seu talento indiscutível, por sua comédia na ponta da língua, conseguia fazer rir nosso país de tantas dores.

Lembro quando a Escolinha do professora Raimundo passava no fim das tardes. Lá estava eu rindo com Rogério Cardoso. Desejando um dia fazer como ele, atuar e emocionar as pessoas. Professor Raimundo, interpretado por Chico Anysio, chama o personagem de Rogério, senhor Rolando Lero, para uma pergunta especial. Rolando Lero era do tipo esperto, não fazia feio na frente de ninguém, mesmo sem saber as respostas, soltava o verbo:

- Senhor Rolando Lero...

- Oh, Amado Mestre, estou eu aqui, pensando na possibilidade de ser esquecido.

- Imagine, seu Rolando Lero. Eu jamais esqueceria o senhor. Me responda agora: quem é Rogério Cardoso?

- Rogério Cardoso? Como esquecer Rorô, amado mestre? Seria ele um desses seres especiais, um mensageiro da alegria?

- Isso mesmo, senhor Rolando Lero.

- Claro que essa resposta eu sei, conheço Rorô há muitos anos e amanhã nós estaremos juntos.

- Não quero deixá-lo triste, mas nosso querido Rogério partiu hoje para sua nova caminhada.

- Como? Rorô partiu? Por que não ficou mais um pouco? Por que não se despediu de mim? Rorô foi para onde? Paris? Nova York? Itália?

- Não, senhor Rolando Lero, Rogério Cardoso faleceu hoje.

- Ah, então não devo ficar triste, amado mestre. Porque é na vida eterna que personagem e ator se encontram. Rorô e eu agora estaremos para sempre juntos na eternidade.

- Nota dez para o senhor, Rolando Lero! Nota dez!

Morre hoje Rogério Cardoso. Um dos meus atores preferidos. Ficará sempre a arte de Rogério Cardoso. Vá com Deus Rogério Ator Cardoso.

 

Aquilo que esperam de você

de Tammy Luciano

11/06/2003

Durante muitos anos, eu pensava em mim, pensando nos outros. Pensava ser necessário vencer para não fazer vergonha em casa, eu teria que ser sempre certa, correta, exata. Assim daria orgulho aos meus pais, seria tida como exemplo, minha família ganharia pontos nas festas de fim de ano.

Com o tempo, comecei a perceber que minha felicidade nem sempre estava dentro do contexto de acerto do que esperavam de mim. Era o início do conflito. Eu seria feliz para agradar a mim, ou seria feliz para manter minha promessa de receber somente elogios na festinha de fim de ano da família?

Os comentários paternos em casa sempre me fizeram acreditar na felicidade profissional da liberdade: "Felicidade não é só dinheiro, minha filha. Felicidade vai ser você ter o prazer de realizar um trabalho prazeroso, ganhando para isso e tendo muitas histórias para contar". Em algumas dessas conversas com meu pai, eu tinha vontade de gritar e dizer: "por isso não quero fazer concurso público, por isso quero viver de teatro. Por isso dividir meu tempo com ensaio, textos e com a minha arte". Durante algum tempo, confesso minha máxima culpa, fiquei lá sendo um pouco atriz, prometendo trabalhar seriamente no jornalismo sério. E assim, minha família me incluía nos comentários de fim de ano com a seguinte observação: "Essa menina tem futuro!"

E eu? E o que eu realmente gostava de fazer? Lá estavam duas pessoas em uma. A primeira atuava em teatro nos finais de semana, era feliz demais no palco, adorava o camarim, olhar a platéia, o rosto desconhecido que assiste você com olhar carinhoso. Meu segundo eu, esse carrancudo, parecia rascunho do primeiro, colocava sapato apertado de salto alto e usava blazer, tudo que mais detesto, e encenava ser uma jornalista feliz. Era possível até me ver, tentando provar que tinha capacidade de falar sobre PIB, renda per capita, orçamento, gasto social...

Mas no fundo, no fundo, ao chegar em casa, ao tirar o blazer, o sapato apertado, eu descobria que precisava tirar muito mais do que uma roupa física, era necessário desnudar minha alma, assumir meu desejo pela arte e viver como sempre quis. Mesmo tendo cursado jornalismo, e não me arrependo disso, hoje trabalho com a escrita de forma alternativa. Gosto de escrever, de questionar, de produzir a combinação de palavras que possa fazer o outro pensar. Não quero mais produzir notícia, quero estar dentro dela, sendo capaz de aparecer como autora, como artista, como criadora.

Não sei ao certo quando dei meu grito de misericórdia. Ou, talvez, isso nunca tenha acontecido, eu esteja apenas imaginando uma dessas cenas que toda a família está reunida na festinha de fim de ano e você diz: "não quero ser o que esperam de mim. Quero ser aquilo que nem eu esperava ser!". Pronto, a família toda chorando, a vovó querendo desmaiar, cai de pernas para o alto, a calcinha parecendo: "Artista, meu Deus!". O fato é que hoje não sou mais quem era, ficou apenas uma dessas duas pessoas em mim. Alguns notaram, outros não entenderam bem o que quero ser quando crescer, acho que não vou crescer nunca, e me aconselharam a voltar atrás. Passo dado, assunto encerrado.

Tirar a roupa na frente de mim, conhecer mais do meu corpo real, sem máscara, meu próprio mar, meu céu, minhas terras. Posso ser feliz me realizando sem rótulos. Não sou só jornalista, não sou só atriz. E me deixem assim. Sou artista, sou eu da forma que realmente quero e não da forma que as pessoas querem que eu seja. Felicidade é ser a sua felicidade e não a dos outros.

 

Quando somos o outro

(16/05/2003) de Tammy Luciano

 

Ator tem que ser verdadeiro. Essa foi umas das primeiras lições recebidas como aluna de teatro. Isso há uns 15 anos atrás. Eu era ainda muito menina e, talvez, esse conceito de verdade fosse difícil de entender como um todo. Com o tempo mergulhei fundo nessa idéia e acabei aproveitando o substantivo para aplicá-lo na minha vida. Ser verdadeira me fechou portas e trouxe algumas inimizades, mesmo assim quem eu conquistei está do meu lado até hoje e o que conquistei se tornou concreto na minha existência. 

Voltando ao teatro, somente o tempo nos faz entender o peso de ser sincero com a profissão, com essa arte tão exibicionista, no sentido claro de mostrar à platéia um trabalho, que é a representação. E como a verdade interfere na criação de uma personagem! Não adianta atuar com a interpretação feita só no exterior, da boca pra fora, tem que ser um exercício mais fundo de sentir verdadeiramente aquela personagem, de ser e agir como a criação do autor indicou.

Aí aparece a moradia do pecado de muitos atores. Alguns acreditam ser mais fácil não ir fundo na pesquisa, usar aquilo que já existe, aproveitar seus conhecimentos e suas próprias características para absorver o personagem em si mesmo. Tudo por uma exibição do próprio corpo, de demarcar os limites do talento, de mostrar para o amigo-aluno ser melhor do que ele. A preocupação em provar um serviço teatral destrói qualquer possibilidade de crescimento artístico. Porque essa luta de conquistar seu espaço deve ser feita entre você e você. É dispensável mostrar ao outro. Ele perceberá com o tempo nas suas atuações estudadas, sentidas, verdadeiras. O ator exibido deixa de ser ator, mostrando uma caricatura de ator perfeita somente para ser olhada por uma platéia.

Agora, como conquistar essa verdade nas atuações? Como minha personagem deve estar em mim sinceramente? O primeiro passo é deixar de lado seu ego. O seu eu não importa mais do que o eu da personagem. Sua individualidade mesquinha ajuda se for esquecida. Se eu me preocupo em não ficar feia no palco, ou de sempre aproveitar uma cena para mostrar meus dotes físicos, estou me achando mais importante do que a história, a personagem, a idéia do autor. Se é preciso me jogar no chão, me sujar, me ver feia, cortar minhas unhas francesinha, picotar meu cabelo, eu farei isso. Se a história está pedindo, eu não posso ficar em cima do salto, preocupada como vai ser minha vida sem dez centímetros a menos de cabelo.   

O ator é um grande intérprete, mas não interprete de sua própria vida. Eu estou no palco ciente de quem eu sou a personagem, o outro, e naquele momento do espetáculo me deixo de lado. Conheço a história, sei quem é o autor, pesquisei a época, cada objeto de cena está ali e eu sei o motivo. Junto com todos os artifícios do teatro, vou me vestir da personagem e aos poucos vou mais longe do que uma roupa, vou andar, olhar, pensar como o outro. Eu não morri, estou ali e muito menos existe nessa labuta de atuar um lado espiritual de receber uma personagem, um santo, como alguns acreditam. O segredo é apenas a personalidade do ator, o seu passado, suas raízes e sentimentos passarem a ser menos importantes do que a personagem. Posso até emprestar para essa personagem alguma característica minha, isso não é proibido, mas só faço quando necessário. Muitas vezes um gesto meu ajuda a platéia a entender melhor um sentimento de quem estou interpretando. Nesse caso, posso ceder da mesma forma que no dia a dia absorvemos atitudes, gestos e linguagem de amigos e familiares.

E o que eu faço com minha vida particular? Se eu tive um aborrecimento na vida pessoal, não levo para o palco. Se tenho alguma diferença com outro ator não é no palco o momento de resolver isso, porque se minha personagem ama o outro ator e eu não sinto o mesmo, qual sentimento deve prevalecer? Naquele momento, na caixa teatral, eu, em nome da personagem, amo o outro ator.

Quando existe verdade em agir no palco e quando nossa crença não tem barreiras, tudo flui. O aprendizado técnico aliado a esse sentimento de acreditar permite que a história seja bem contada. A platéia sai acreditando que por uma hora você era a mocinha, com passado e presente de decepções, ou que você é o rapaz malvado, matador, sem pena de ninguém. Cabe a você, no camarim, voltar a você. Renascer a cada espetáculo e assim aprender que a verdade da cena será sua verdade. Uma sinceridade de ser, agir e atuar numa profissão em que podemos ser muitos e voltar sempre a nós. E esse voltar a nós é o melhor da história.

    Fé e pé...

 

Fazer sorrir ou fazer chorar?

(17/04/2003) de Tammy Luciano

Outro dia, esperando para dar aula, pensei que tenho feito bem menos teatro do que gostaria. Atuo mais na vida, nos passos diários, do que no sagrado palco. Por que, diga lá você, para seguir a vida é preciso arte, não é mesmo? Não tem sido fácil enfrentar as dores do dia a dia. Somente um certo ar de encenação nos faz aceitar tantas diferenças, inseguranças e discriminações. O menino morre de fome do seu lado e você finge ser normal. E aos poucos vai sendo mesmo. Acontece tantas vezes, nosso teatro vai ficando tão real e de repente vira verdade aceita: o menino morto pela fome, o rapaz morto pelo crime, o filho drogado morto pelo pai e a velhinha morta pelo esquecimento.

Na hora de decidir que peça faria com alguns alunos, escutei algumas pessoas comentando que nossa melhor opção seria a comédia. O mundo já tem drama demais, está tudo tão pessimista, tão triste. Vamos alegrar as pessoas! Pensei alguns dias no assunto e acabei optando exatamente pelo contrário. Escreveria sobre os dramas do dia a dia, falaria de nossa dor para quem fosse assistir. Minha pergunta era uma só: quando a tragédia estivesse ali, na cara da platéia, ela  reconheceria o próprio problema, ou algo que tenha vivido? Eu sou aquela mulher amargurada, eu sou aquele homem traidor, eu sou aquela dor, aquele vazio. Eu queria fazer brotar pensamentos e não apenas apagar por uma hora e meia o problema de cada um. E aí, desculpa os problemas alheios, era hora de falar dos problemas universais!

Isso não significa que amanhã, em outra apresentação, eu não opte por abrir a porta da alegria e falar apenas dos momentos felizes que cada um de nós tem direito a viver. A felicidade também pode e deve ser retratada no teatro, nosso espaço de arte. E talvez seja mesmo uma tremenda maldade falar da dor quando ela já é tão funda. Massacrar a pele quando a ferida amarga da realidade é pouco, perto de uma cena no palco. Não me interessa. Mesmo com platéia pequena, mesmo com pouca gente vendo, mesmo sendo teatro, com poucos lugares e não televisão com milhões de olhares, quero verbalizar nossa realidade. O papel ruim de cada ser humano estará ali, estampado em cada ator.

Pergunto-me onde está meu teatro? Onde está o palco que aceitei fazer para mudar o mundo? É cada dia mais difícil encontrar artistas engajados em nosso mundo, alguns parecem perdidos em suas próprias contas no banco. Não é  importante ficar rico, não é necessário muito aplauso, é apenas maravilhoso imaginar a arte fazendo a parte dela, mudando a mente das pessoas. Mudando cabeças para melhor, alimentando nossa fome de ser o poder do bem. Crescendo no teatro, na vida real. Deus, dizem as religiões, nos ofereceu o Planeta Terra. Será que isso é o melhor que sabemos fazer com nossas vidas?

Que o teatro seja sempre um grande agitador de platéias, um grande articulador de mudanças, um peso a mais em nossas transformações. E que Deus jamais se arrependa de ter nos dado essa chance. Deus também criou o teatro!

Fé e pé...

 

Em poucas palavras (carta aos alunos)

 (03/2003) de Tammy Luciano

Estive pensando essa semana em vocês, nessas novas pessoas que estão chegando ao curso profissionalizante. Acabei lembrando de mim, do meu início como atriz, do que realmente me fez apostar nessa labuta de ser artista e viver da arte. Mesmo que todos aconselhassem minha mudança profissional, mesmo escutando todas as dificuldades, resolvi apostar na felicidade. Não adiantaria ganhar dinheiro como advogada, passar para um concurso público. Sim! Eu queria o público, não o concurso. Queria a platéia. Hoje, uma certeza me acompanha: sou feliz! Uma felicidade real sem direito a depressão, alegre por caminhar, mesmo que seja de chinelo, em direção ao que eu sempre busquei.

Não posso negar que algumas mudanças ocorreram na carreira artística com o passar dos anos. Hoje em dia são aceitos no mercado indivíduos, auto-intitulados atores, sem ter noção da técnica, sem interesse na arte, mostrando claramente estar bebendo na fonte da interpretação, apenas pela fama, pelo dinheiro e pela possibilidade de ser alguém com projeção nacional. Os atores acabam sendo substituídos pela gente que veio graças ao escândalo. Não é raro encontrar pessoas com legenda de ator sem jamais ter colocado os pés no teatro. Confesso que, em algumas noites de silêncio, me pergunto o que será de nossa interpretação. Entendo como ator aquele profissional interessado em estudar a arte do palco, buscando informações, leitura, aprendizado e ensaiando exaustivamente.

É por isso que amo essa idéia de curso, aula e ensino teatral. É a possibilidade de imaginar nossa carreira novamente sendo feita por quem conhece do assunto. E vocês vão notar, quanto mais estudamos teatro mais tomamos ciência do quanto é necessário entender para ser alguém do ramo. Não basta apenas querer atuar, é importante deixar correr as horas ensaiando, entendendo o mecanismo de agir em nome de uma personagem, esquecendo nossa essência para convencer como alguém que muitas vezes não temos nenhuma semelhança.

Aprendi nessa vida que o ator é um dos profissionais que mais tem história para contar. Também deve ser um observador e jamais deixar de lado a criatividade. Esse é o grande exercício na vida teatral. Questionem, mergulhem na verdade do trabalho e façam a arte com suor e garra. Aproveitem o período na Casa dos Artistas para dar o máximo de si nas aulas, tentando superar as barreiras e aprender.

Posso garantir que, anos depois de iniciar no teatro, ao término de um espetáculo, as palmas me fariam sentir o que nenhum outro trabalho conseguiria: um arrepio na alma, uma conexão com o astral, uma surpresa ao ser envolvida pela força do aplauso e a energia da platéia agradecida. Aquele era o sinal definitivo e o aviso verdadeiro para continuar buscando minha realização profissional, pessoal e espiritual, através de um trabalho contínuo. Porque o ator não para nunca!

Que estejam bem-vindos os alunos antigos e sejam bem-vindos os novos. Façamos um só grupo, com um mesmo objetivo: aprender o teatro em sua grandeza!

Fé e pé...