Últimas imagens...


(*) Tammy Luciano

04/08/2001

 

 

O corpo de Fernanda Vogel foi, finalmente, encontrado. Assim terminou a história da modelo que a gente conhecia por fotos, mas não sabia bem o nome, o que ela fazia, quem namorava, onde morava e como vivia. Hoje, a vida de Fernanda é conhecida de todos nós. E como lamentamos sua partida. O engraçado, se é que existe algum engraçado, é que nossa vida seguia o curso muito bem. De repente, a gente escuta no rádio, na TV, ou lê pelo jornal e a vida da gente vira uma grande torcida pela menina de Itaboraí. E a mente vai longe. Será que não passou um barco e ela está em algum hospital? Será que ela conseguiu chegar na praia, mas não quer aparecer? Enquanto não havia corpo, havia esperança.

Essa torcida era de todos nós, pessoas que não conheciam Fernanda ao vivo, talvez apenas de alguma matéria de moda ou algum comercial de TV. Só que quando a gente sabe da história, a vida muda como se de alguma maneira fosse muito importante continuar tendo Fernanda aqui, mesmo sendo distante do nosso mundo, mesmo sem jamais termos trocado uma única palavra com ela. Alguém que a gente não conhecia passa a fazer falta da nossa vida. E tudo isso porque vemos nos olhos da mãe da moça, no sofrimento do padrasto, no silêncio do namorado, que sobreviveu ao mesmo acidente, na dor de um ex-marido presente e dos amigos um vazio que começa a incomodar.

Essa semana, escrevendo um roteiro na produtora onde trabalho veio a coincidência de ver algumas imagens de um desfile de uma famosa grife que aconteceu no mês passado. Um dos câmeras fez o backstage do desfile, ou seja ficou no camarim filmando as meninas, colhendo os detalhes do trabalho. E quem estava lá? Ela mesma. Fernanda Vogel. Olhei durante um bom tempo as imagens daquela garota andando de um lado para o outro do camarim, fazendo os cabelos, na dela, exibindo simplicidade. Alguém penteia sua sobrancelha e como são fininhas, a pele tratada. A câmera capta um sorriso dela eternizado pelas notícias do momento. Fica ali, conversa com outras modelos, está feliz. Depois ela passa com uma bolsa na mão, olha para as amigas, parece feliz com todo o futuro que ainda virá. Aí que a gente sofre, porque vendo as imagens e ouvindo as notícias, percebemos que aquele futuro que Fernanda imaginava ter não veio.

Na minha cabeça, ficam várias perguntas: por que pessoas tão jovens partem tão cedo? A ordem de partida é decisão nossa também? A gente sabe quando vai? A gente aprova a decisão do céu? E os projetos que tínhamos? E a vontade de vencer? E os filhos que Fernanda não teve? E os dias que ela ainda poderia viver?

Vejo alguns incentivando que a família tem que processar, que o culpado precisa ser achado e comentam vários depoimentos perdidos da família, algumas matérias cobrando o futuro. Para aqueles que amavam Fernanda, dinheiro nenhum resolve a saudade. Fernanda Vogel não virá acompanhando um possível ressarcimento. Pode ser que a família entre com um processo contra o grupo Pão de Açúcar. Pode ser que ganhe. Nada trará a modelo de volta.

A gente não conhecia Fernanda, mas que ela podia ter ficado um pouco mais, isso podia.

Felicidades Virtuais e Reais...
Até semana que vem...
Beijinhos. Tammy